Revista Manutenção

IoT aplicada à função manutenção

IoT aplicada à função manutenção

Recuando algumas décadas, a realidade da manutenção era baseada sobretudo na utilização do equipamento até à falha ou avaria, por consequência, na manutenção corretiva. Este tipo de estratégia era, na época, geralmente bem aceite.

1. Introdução

Paulatinamente, alterações a esta estratégia foram sendo introduzidas, agora com intervenções prévias à deteção da falha, baseadas em intervalos fixos de tempo (calendário) ou de funcionamento – manutenção preventiva sistemática – ou com recurso a monitorização contínua ao estado do equipamento ou componente, também de forma prévia à deteção da falha – manutenção preventiva condicionada. Da sensibilidade dos autores, atualmente, as estratégias preventivas são consideradas como adequadas pela maioria das organizações.

Não obstante, o rápido desenvolvimento tecnológico a que temos vindo a assistir colocou-nos perante uma realidade que já ninguém duvida que veio para ficar: a Indústria 4.0. O paradigma começa, novamente, a alterar-se. O caminho para atingir nas organizações a total vulgarização de uma estratégia de manutenção que siga o princípio de recorrer a previsões extrapoladas da análise e da avaliação de parâmetros da degradação do equipamento ou de um certo componente – manutenção preditiva – começa, portanto, a ser trilhado.

Na senda do que começou no século XVIII com o aproveitamento da energia do vapor, seguido pela utilização da eletricidade – entre outros adventos que aceleraram o ritmo industrial – e, depois, das Novas Tecnologias (à altura), eis que a “velhinha” Revolução Industrial se alimenta de conceitos e formulações novas: a possibilidade de comunicação machine to machine (M2M), permitindo a troca de dados de forma bilateral, o conceito de machine learning (em que os sistemas podem, com base em dados, aprender, identificar padrões e tomar decisões com o mínimo de intervenção humana), a aquisição de informação de forma automática, o tratamento dos dados e consequente análise, entre outras.

Dada a relevância de um tema que se tornou uma tendência – Internet of Things (IoT) ou Internet das Coisas, na tradução literal –, ainda que não esgotando a totalidade dos conceitos e implicações decorrentes, o presente artigo surge com o objetivo de apresentar algumas considerações sobre a aplicação desta tecnologia à função manutenção, baseadas na reflexão dos autores acerca do tema.

2. A IoT e a mudança de paradigma na indústria

A Internet Society [1] define IoT como “a extensão da conectividade de rede e capacidade de computação a objetos, sensores e outros dispositivos comuns, normalmente não considerados computadores, permitindo que estes gerem, troquem e consumam dados com o mínimo de intervenção humana”. Trata-se, portanto, de um conceito bastante amplo, podendo ser aplicado a um vasto conjunto de setores – agricultura, infraestruturas, transportes, retalho, indústria, entre outros. Ao dar contexto e enquadramento industrial à IoT, estabelece-se um novo conceito – Industrial Internet of Things (IIoT). É a este que as próximas linhas são dedicadas.

Na indústria, o foco é a produtividade. À semelhança do que acontece com os nossos eletrodomésticos, também os ativos industriais estarão cada vez mais conectados. Indicadores como a disponibilidade dos equipamentos poderão ser bastante otimizados por via da IIoT, satisfazendo, deste modo, a consideração com que se iniciou o parágrafo.

O rápido desenvolvimento desta tecnologia tem sido acompanhado de um crescente interesse por parte do mercado do setor da manutenção. De facto, o entusiasmo manifestado pelos diversos atores do setor relativamente às vantagens e melhorias decorrentes da utilização destas novas possibilidades tecnológicas tem sido cada vez maior – o aumento da produtividade e dos tempos de exploração dos equipamentos, tanto quanto à eficácia, como no que se refere à eficiência, e a redução de custos associados, estão, desde logo, entre as várias vantagens que poderão ser apontadas.

O aspeto económico a que se fez menção deve ser relevado, dado que o potencial de economia de recursos financeiros é bastante significativo. Com efeito, tomando como exemplo uma das vantagens anteriormente identificadas, a diminuição dos tempos de indisponibilidade dos ativos conduz a claros benefícios do ponto de vista financeiro. De igual forma, a redução do número de substituições de sobressalentes ou da aplicação de consumíveis de forma desnecessária, traduzir-se-á numa relevante diminuição de custos. De forma inerente, também os custos de mão-de-obra associados sofrerão uma importante redução. Em razão de tudo isso, ainda que o gestor da manutenção não deva pautar a sua atuação ape- nas segundo a vertente económica, em função das metas de custos estabelecidas para a manutenção da organização, trata-se de uma questão que deverá merecer atenção.

Os benefícios para a função manutenção decorrentes da utilização massiva desta tecnologia que, entre outros, passam pela maior frequência e qualidade dos dados obtidos, pela gestão técnica centralizada dos ativos ou pela menor intervenção humana, estão para lá de qualquer contestação. De qualquer modo, pontos menos positivos poderão, naturalmente, ser apontados, em particular no que toca ao investimento inicial, relacionado, designadamente, com: aquisição de hardware (sensores); equipamentos produtivos; equipa de manutenção, que poderá ser necessário reforçar com um elemento afeto à programação e automatismos; subcontratação da manutenção. Outros havia que poderiam ser identificados, como, por exemplo, o potencial aumento da vulnerabilidade ao nível da segurança de dados, intrínseca a sistemas deste tipo. Em todo o caso, crê-se que as vantagens superam, em larga medi- da, as desvantagens.

Enunciados que estão alguns dos pontos a favor e contra, recoloque-se o foco na manutenção preditiva, o tipo de manutenção que mais beneficia desta tecnologia. De facto, como referido, com a sua aplicação à indústria, tornar-se-á mais fácil adotar este tipo de estratégia de manutenção para a gestão dos ativos de qualquer organização, uma vez que, por meio da utilização de sensores, aparelhos de aquisição de dados, entre outros dispositivos disponíveis, passa a ser possível recolher uma grande quantidade de dados e monitorizar os equipamentos de forma contínua. Esta realidade conduzirá a uma alteração significativa na abordagem aos ativos, aos momentos de intervenção no seu ciclo de vida e às próprias tarefas a realizar.

Com a análise em tempo real dos dados e tendências identificadas, a atuação da manutenção passará a ser feita com uma maior acuidade e asserto, atuando apenas quando necessário – e apenas nesse caso –, por oposição a quando possivelmente necessário, evitando, deste modo, intervenções de cariz puramente preventivo sistemático em equipamentos nos quais não se iria verificar qualquer tipo de falha ou avaria.

A tendência para a diminuição dos custos desta tecnologia possibilita a disseminação desta estratégia de manutenção que, apesar de não recente, ainda não foi adotada pela generalidade das organizações. Ações como a substituição de um rolamento em data anterior à previsão da data de chegada ao patamar de degradação – em função da análise de tendência, com base na medição sistemática do ruído –, deixarão de ser exclusivas de algumas empresas, passando a poder ser adotadas por um mais vasto leque de organizações. Chegará, pois, o momento em que a manutenção preditiva se terá vulgarizado, com evidentes benefícios para a função manutenção e para as empresas.

3. A aplicação à função manutenção

Perante uma possível alteração à estratégia seguida, o gestor da manutenção poderá ser algo cético relativamente à mudança. As questões que deverá colocar a si próprio serão relacionadas com a sua vontade em melhorar e otimizar a manutenção e, porque parte integrante de uma organização, contribuir para a melhoria da capacidade produtiva. Perante a tomada de consciência desses aspetos, a generalidade dos decisores tornar-se-á mais permeável a novas soluções – ainda que não seja uma tomada de decisão baseada em dados e informação, será suportada pela necessidade, entendimento e compromisso transversalmente partilhados, como forma de alcançar patamares de excelência nos desempenhos departamentais, para atingir a excelência da organização.

Hélder Furão e João Nunes Marques

Navaltik Management – Organização da Manutenção, Lda.
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