Resumo
Os sistemas de medição devem ser confiáveis e consistentes porque os dados com eles obtidos suportam tomadas de decisão com impacto na produtividade e na competitividade das organizações, nomeadamente decisões sobre a qualidade do produto, a segurança de pessoas e bens, a eficiência dos processos e a conformidade regulamentar. Neste contexto, no qual a gestão da manutenção se integra, é recomendável/exigível que se avalie a tendência (BIAS) dos sistemas de medição. Para o efeito, este artigo inclui um procedimento para se efetuar essa avaliação e exemplifica a sua utilização.
Introdução
Os gestores da manutenção estão hoje mais conscientes e sensibilizados para a importância de recolher, tratar e analisar dados para diagnosticar e prevenir problemas nas instalações, infraestruturas e equipamentos (IIE) numa fase precoce, bem como para maximizar a eficiência, a segurança, o ciclo de vida, entre outros, minimizando impactos ambientais e custos associados à gestão e manutenção dessas IIE. De qualquer maneira, é sempre pertinente divulgar boas práticas e contribuir para a sua disseminação, até porque a realidade nem sempre coincide com o que deve ser ou tinha de ser feito num contexto real de trabalho [1].
A gestão da manutenção é cada vez mais suportada em dados disponibilizados pelos sistemas de medição, sendo amplamente aceite que para compreender, manter e melhorar as IIE é necessário ter dados [2,3]. Em muitas empresas os sistemas de medição* já são alvo de exigências rigorosas. Por exemplo, a norma que define os requisitos para a gestão da qualidade na indústria automóvel, a IATF 16949, que tem por base a norma ISO 9001, na cláusula 7.1.5.1.1 tem explicito que a organização deve analisar os sistemas de medição (inspeção/teste de características do processo ou produto especial ou crítico), utilizando como referência o Measurement System Analysis [4], documentar os resultados e assegurar que os sistemas de medição são confiáveis e consistentes.
De acordo com [4], num contexto industrial, é exigida a análise da repetibilidade, reprodutibilidade, linearidade, tendência e estabilidade dos sistemas de medição. Na Revista Manutenção já foram publicados alguns artigos sobre esta temática (análise dos sistemas de medição), pelo que, como complemento a esses trabalhos, neste artigo é apresentado um procedimento para a análise da tendência e exemplificada a sua utilização.
Tendência (BIAS) do sistema de medição
As grandes empresas de produção (da indústria automóvel, petróleo e gás, entre outras) já recolhem dados que permitem monitorizar a “saúde” e fazer uma manutenção preditiva das suas máquinas/equipamentos, porque perceberam e constatam os benefícios significativos que daí decorrem [5]. Esta prática tem subjacente a indispensável atividade de controlo regular dos sistemas de medição, que pode/deve ser implementada também nas pequenas e médias empresas. De acordo com [4], a qualidade dos dados que os sistemas de medição disponibilizam pode ser caracterizada pelo afastamento dos valores medidos a um valor de referência e pela variabilidade em torno desse valor. Esta última, sendo uma medida da dispersão dos dados, é quantificada em termos da repetibilidade e eventual reprodutibilidade do sistema de medição, enquanto o afastamento a um valor de referência é quantificado pela tendência (BIAS). Também denominada por erro de justeza [VIM 2.18 e 4.20]**, a tendência é a diferença entre o valor da média de indicações repetidas (valores medidos) e um valor de referência. Para se proceder à sua avaliação, que pode ser feita de uma forma rápida e simples, é proposto o procedimento que a seguir se descreve.
Avaliação da tendência – procedimento
Para avaliar a tendência de um sistema de medição é necessário ter um Padrão** (ou peça de referência) cuja valor “verdadeiro” (Vref) é conhecido e rastreável (está calibrado/certificado). Este padrão deve ser medido pelo menos 10 vezes, no máximo 25 vezes, e o que se espera é que a tendência (T), que é igual à diferença entre a média dos valores medidos () e o Vref, seja nula. Se assim não for (T ≠ 0), é necessário dar resposta à seguinte pergunta:
A diferença entre a média dos valores medidos e o valor de referência é estatisticamente significativa?
Para o efeito pode ser realizado um teste de hipóteses e, assumindo que o desvio padrão da população/processo é desconhecido, proceder do seguinte modo:
- Definir a hipótese nula (H0) e a hipótese alternativa (H1)
- H0: a tendência é nula (T = 0);
- H1: a tendência é diferente de zero (T ≠ 0).
* Entende-se por sistema de medição o conjunto de um ou mais instrumentos de medição e frequentemente outros dispositivos, compreendendo, se necessário, reagentes e fontes de alimentação, instalado e adaptado para fornecer informações destinadas à obtenção dos valores medidos, dentro de intervalos especificados para grandezas de naturezas especificadas. Um sistema de medição pode consistir em apenas um instrumento de medição [VIM, 012].
** Ver definições no VIM, disponível em https://www.ipq.pt/metrologia/publicacoes/.
Nuno Costa
Instituto Politécnico de Setúbal – ESTSetúbal
nuno.costa@estsetubal.ips.pt
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Outros artigos relacionados
- Artigo “Manutenção e Sistemas de Medição – Análise da Discriminação – 1ª Parte” da edição 156/157 da revista Manutenção;
- Artigo “Manutenção – Linearidade do sistema de medição” da edição 159 da revista Manutenção;

