A manutenção é a cardiologia da indústria, guardiã da prontidão técnica para que as nossas vidas decorram sem arritmias. Ajusta, prevê, planeia e repara quando necessário.
Mais de 500 pessoas, entre engenheiros, decisores técnicos e profissionais ligados ao setor passaram pelo 18.º Congresso Nacional de Manutenção que decorreu a 20 e 22 de novembro no Lagoas Park Hotel, em Oeiras. O Congresso incluiu ainda o 12.º Encontro de Manutenção do Países de Língua Oficial Portuguesa. Do programa do evento organizado pela Associação Portuguesa de Manutenção e Gestão de Activos (APMI) constou, igualmente, uma visita técnica à nova Central Termoelétrica do Ribatejo, no Carregado.
Com um intenso programa temático e técnico concretizado em mais de meia centena de sessões em dois auditórios, e uma feira técnica que favoreceu a atmosfera de networking entre profissionais do mesmo ofício, o evento debateu a manutenção e gestão de ativos nas suas vertentes mais atuais, num quadro de ajustamento das economias ao advento dos dois motores mais potentes da inovação no nosso tempo: a transição energética e a Inteligência Artificial (IA).
Falou-se de sustentabilidade e economia circular, de tecnologias aplicadas à manutenção, de segurança e transformação digital, de normalização e quadros regulatórios e, não menos importante, do ativo mais valioso – as pessoas. Na verdade, o evento ofereceu uma ocasião privilegiada para todos os planos e desafios que interessam a um setor que também é confrontado com novas exigências e paradigmas.
Partilhar visões
No discurso de abertura dos trabalhos, João Cruz, Presidente da APMI, salientou a linha de continuidade histórica dos congressos APMI como um “ponto de encontro perfeito para partilha de conhecimentos e discussão de temas relevantes para a manutenção e gestão de ativos em Portugal e no mundo”.
“Os congressos permitem um intercâmbio de ideias e experiências entre gestores e profissionais da área, no sentido de debaterem as inovações e as boas práticas industriais e empresariais. A manutenção e gestão de ativos físicos é, cada vez mais, um foco muito importante para as empresas que ambicionam ser competitivas, eficientes e inovadoras. E é determinante para a sua rentabilidade. Por isso, o nosso papel é absolutamente estratégico no sucesso das organizações. O mundo industrial está em rápida transformação, assenta em tecnologias como a automação, a sensorização e a Inteligência Artificial. Nesse sentido, este congresso é uma oportunidade para debater as inovações tecnológicas, modelos avançados de manutenção preditiva e novas práticas e metodologias de vanguarda no setor. Com este desiderato conseguimos aqui reunir especialistas de diversas nacionalidades, tanto do mundo empresarial como académico, para partilhar visões a apresentações”, referiu João Cruz.
Viveiro de empresas
Pedro Patacho, vereador da Câmara Municipal de Oeiras, que veio ao Congresso em representação do Presidente Isaltino Morais, trouxe “uma mensagem de confiança, de incentivo e valorização daquilo que é o trabalho das empresas, dos seus quadros e gestores, das pessoas que criam riqueza e contribuem para que o país avance”.
“A forma que tenho para vos expressar o apreço que Oeiras nutre pela iniciativa privada, pela vida empresarial e pelo papel que esta tem no nosso modelo de desenvolvimento, expressa-se naquilo que é a história do território ao longo dos últimos 40 anos. E é também por isso que acolhemos aqui fóruns empresariais da mais diversa natureza. Este é um exemplo que junta gestores, quadros técnicos e empresas em torno da manutenção dos ativos, um tema tão importante e tão crítico para a rentabilidade das organizações”, acrescentou o autarca.
“Em Oeiras respira-se qualidade de vida, mas isso só é possível devido ao trabalho das empresas que estão cá instaladas. Hoje temos 640 empresas por quilómetro quadrado num concelho que, no seu total, ocupa apenas 45 quilómetros quadrados. Estas empresas geram anualmente – sem contar com o setor financeiro -, um volume de negócios acima dos 36 mil milhões de euros. Isto traduz uma enorme capacidade de criação de riqueza e valor fiscal para a dinâmica económica do território, da região e do país”, acentuou Pedro Patacho, desejando “um futuro de maior abertura e facilidade na criação de melhores condições para a prosperidade económica das organizações privadas, que são as que criam riqueza e empurram o país para a frente”.
Manutenção é engenharia
O Bastonário da Ordem dos Engenheiros (OE), Fernando de Almeida Santos, disse na sua intervenção perante os congressistas, que “a manutenção é uma das áreas que a Ordem mais tem acarinhado nos últimos tempos, concretizando no último mandato a especialização em gestão de ativos”.
“Só não criámos uma especialização mais alargada, em manutenção e gestão de ativos, porque já tínhamos uma especialização de manutenção industrial e não a quisemos fundir, pois a gestão de ativos vai muito além da manutenção industrial. No entanto, é admissível que possamos pensar futuramente na melhor forma de conjugar os dois universos”, explicou o Bastonário.
Fernando de Almeida Santos referiu “os custos diretos e indiretos, mensuráveis e não mensuráveis da falta de manutenção em muitas matérias”, dando como triste exemplo o que recentemente aconteceu em Lisboa [acidente com o elevador da Glória] que, num sentido mais geral e avaliação “espelha lacunas, distração ou falta de cuidados que agora têm que ser resolvidos, estando a Ordem dos Engenheiros envolvida na procura de soluções de futuro”.
O Bastonário da OE avançou também que a Ordem vai dedicar especial atenção, durante o próximo ano, a dois grandes temas: a segurança e a defesa. “A segurança não existe sem manutenção e a defesa tem muito de manutenção”, acentuou Fernando de Almeida Santos.
O braço da Lusofonia
Joaquim Vieira, Vice-presidente da APMI que também é um dos fundadores da Associação Angolana de Manutenção e Gestão de Activos (AAMGA), atualmente Vogal da Direção, partilhou uma mensagem do Presidente da Direção, Pedro Afonso, na qual este enfatiza a relevância do Congresso como “promotor da manutenção e gestão de ativos em toda a lusofonia, estabelecendo um poderoso contributo para uma cultura de manutenção, bem como um incentivo para adoção das melhores práticas e para a afirmação da manutenção como pilar do desenvolvimento”.
“Valorizamos a parceria estratégica com a APMI que nos permitiu a realização simultânea dos encontros de Manutenção dos Países de Língua Oficial Portuguesa nos últimos 11 anos. Além disso, registamos com satisfação abordagens temáticas inovadoras para a manutenção, como o uso da tecnologias digitais ou não digitais, a descarbonização e a economia circular, a transformação digital e a Inteligência Artificial, a transição energética ou a contribuição da manutenção para a prevenção de acidentes, a sustentabilidade e o sucesso das empresas, que são temáticas de extrema relevância no contexto atual face aos desafios de hoje e do futuro, em todos os setores da economia mundial”, referia a carta lida por Joaquim Vieira.
“A manutenção será sempre um aliado estratégico para a sustentabilidade de qualquer sociedade, país ou organização. Por isso não devemos medir esforços e, muito menos, desistir de promover as boas práticas sensibilizando, informando e educando, realizando eventos como este Congresso, pois só dessa forma poderemos massificar a cultura da manutenção e da gestão inteligente de ativos”, acrescenta a mensagem.
IA e experiência humana
No primeiro dia de trabalhos, destacou-se a intervenção de Diego Galar, um dos Keynote Speaker do evento. Professor catedrático na Universidade Técnica de Luleå, na Suécia, e Presidente da Federação Europeia das Associações Nacionais de Manutenção (EFNMS), Diego Galar centrou a sua intervenção em aspetos de resiliência e fiabilidade, num contexto de IA e manutenção preditiva com modelos desenhados na simbiose entre dados e experiência humana.
“Na Indústria 5.0 temos três pilares: a sustentabilidade, a centralidade humana e a resiliência. Esta última é uma palavra de que aprendi a gostar. Resiliência é a capacidade de recuperar de um problema e a Comissão Europeia determinou que, após a pandemia, os nossos ativos têm que ser resilientes, não pode acontecer que falhem e que não haja nada a fazer para recuperar da falha. Por isso, a resiliência é um pilar da Indústria 5.0 e das nossas cadeias de abastecimento, porque é ela que complementa a fiabilidade. Fiabilidade é eu saber quantas vezes falha o meu equipamento; resiliência é perceber como recupero a operação após a falha. Para tal, não queremos que os nossos equipamentos sejam frágeis. Porém, o oposto de ser frágil não é ser robusto, mas sim anti-frágil”, defendeu o orador.
Diego Galar considerou que na manutenção temos que ser como Mitrídates [Rei do Ponto, Anatólia, 133 a.C. – 63 a.C., por muitos considerado o ‘inventor das vacinas’], que todos os dias tomava uma pequena dose de veneno para se tornar imune ao próprio veneno: “da mesma forma temos que expor as nossas máquinas a falhas e a contextos operativos que não são positivos, para que elas se imunizem contra essas falhas. E isto não está a acontecer com a IA industrial, que é a ferramenta que nos ajuda em termos de manutenção preditiva”, explicou o professor catedrático, acentuando a falta de dados como “uma condicionante para o desenvolvimento de modelos de IA mais capazes”.
O professor catedrático recorreu à ‘metáfora do jardineiro’ para explicar a relevância dos dados ‘humanizados’ nos modelos de IA industrial: “os algoritmos estão aí, grátis, os dados são os nutrientes, nós somos o jardineiro que deve fazer crescer a planta. O problema é que não temos bons dados para fazer crescer essa planta. Quando temos analítica de manutenção, tanto descritiva como diagnóstica, prognóstica e prescritiva, temos um problema quando os dados disponíveis são apenas 20% das falhas que podem suceder. Isso significa que, quando ocorre uma falha não descrita na base de dados, ela é inesperada, com todas as consequências negativas que tal implica”.
“As bases de dados tão pouco têm informação sobre os limites da manutenção. Que limites de manutenção devemos colocar? Onde está o limite de segurança? Qual é o limite de manutenção para levar a máquina a serviço? É o que se chama o ‘canto do cisne’, que antes de morrer emite um som único. Esse som é o Santo Graal da manutenção. Como o cisne, o que vai fazer a máquina antes de falhar?”, questionou o orador.
Para Diogo Galar, importa olhar para a manutenção “como se conduzíssemos um carro olhando para a frente e não pelo espelho retrovisor, como fazemos agora, pois não estamos a incorporar o conhecimento humano na nossa IA: os dados têm que ser complementados com a experiência, desenhando uma IA híbrida que já não é frágil, mas resiliente e muito mais robusta. Depender de dados sem a componente da experiência não permite prever o futuro, mas apenas olhar para o passado. E isso é voltar ao exemplo do retrovisor”.
Texto e fotos por Carlos Saraiva
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