O filósofo grego Heraclito é conhecido pela frase “a mudança é a única constante na vida”. Na época, os desafios que temos hoje na manutenção não existiam. No entanto, todo este tempo depois, isto continua a ser verdade e as empresas que não se adaptam irão ficar para trás. A manutenção industrial, como a conhecemos hoje, é o resultado de séculos de evolução. Desde os primórdios da civilização até à Revolução Industrial e à era da automação, as técnicas têm sido adaptadas para lidar com o crescimento das necessidades industriais. A história da manutenção reflete as mudanças nos paradigmas tecnológicos, sociais e económicos, assim como a crescente complexidade das máquinas e sistemas.
Neste artigo, faremos uma análise da evolução, desde as raízes nas primeiras ferramentas e máquinas até aos sistemas modernos e automatizados de gestão de manutenção.
Origens
Sociedades pré-industriais
Antes da Revolução Industrial, as sociedades dependiam fortemente da agricultura, do artesanato e de atividades rudimentares de manufactura. A manutenção de ferramentas e equipamentos era uma prática comum, mas não formalizada. Os artesãos, agricultores e pequenos proprietários eram responsáveis pela manutenção das suas próprias ferramentas, o que significava que a reparação era muitas vezes improvisada e realizada apenas quando as ferramentas falhavam.
Por exemplo, nas civilizações antigas, como a Egípcia e a Mesopotâmica, a manutenção de ferramentas de pedra, madeira e metal estava intimamente ligada ao conhecimento artesanal. Os ferreiros desempenhavam um papel crucial na reparação de utensílios metálicos, como arados e machados. Contudo, não se seguiam processos rigorosos ou planeados.
Revolução agrícola e a necessidade de conservação
Com o aumento da complexidade das ferramentas durante a Revolução Agrícola (cerca de 10.000 a.C.), surgiu a necessidade de uma manutenção mais regular. Por exemplo, a introdução de arados de metal e outras ferramentas mecânicas exigia algum nível de cuidado, incluindo a lubrificação e o afiar das lâminas. Ainda assim, esta era uma manutenção reativa, apenas realizada quando uma falha comprometia a produção.
A própria natureza das sociedades pré-industriais limitava a formalização da manutenção. A vida útil das ferramentas era prolongada ao máximo e a substituição era a opção quando a reparação já não era viável.
Revolução Industrial e a formalização
Crescimento das fábricas e a dependência das máquinas
A Revolução Industrial (1760-1840) marcou um ponto de viragem na história da manutenção. Com a introdução de máquinas a vapor, teares mecânicos e outras inovações tecnológicas, a produção passou a ser dominada por fábricas que operavam em grande escala. À medida que as fábricas se multiplicavam, o foco na eficiência e na continuidade operacional tornava-se cada vez mais importante.
Nesta fase, a manutenção passou a ser mais do que uma atividade reativa. A fiabilidade das máquinas era crucial para garantir a continuidade da produção, e as falhas inesperadas tornavam-se dispendiosas. Assim, os primeiros passos para a formalização da manutenção começaram a ser dados, com equipas dedicadas à manutenção a surgir nas fábricas.
Manutenção corretiva: modelo predominante
Durante o início da Revolução Industrial, a manutenção corretiva foi o modelo predominante. As máquinas eram mantidas em funcionamento até que ocorressem falhas, momento em que as equipas de manutenção eram mobilizadas para realizar reparações. Embora este método fosse eficaz num ambiente de produção limitado, tornou-se claro que, à medida que as operações industriais cresciam em escala e complexidade, esta abordagem reativa acarretava custos significativos.
As fábricas que dependiam de grandes máquinas, como as fábricas têxteis e siderúrgicas, eram particularmente vulneráveis a paragens prolongadas. A resposta inicial foi a formação de trabalhadores especializados para identificar e reparar avarias rapidamente, mas o impacto da falha de equipamentos ainda se fazia sentir.
Primeiros sistemas de manutenção planeada
Com o passar do tempo, os industriais começaram a perceber que as avarias podiam ser evitadas com uma abordagem mais proativa. No final do século XIX, começaram a surgir os primeiros sistemas de manutenção planeada. A manutenção preventiva, que envolvia a substituição de peças ou a lubrificação de componentes antes que falhas ocorressem, começou a ser implementada de forma rudimentar.
Este foi o início de uma transição para um pensamento mais sistemático sobre a manutenção. Em vez de simplesmente reagir a avarias, as empresas começaram a planear as atividades com base no tempo de uso das máquinas e na sua condição.
Invenção do motor a combustão e os novos desafios
Era do motor a combustão
O final do século XIX e o início do século XX trouxeram uma série de inovações tecnológicas que transformaram a manutenção industrial. A invenção do motor a combustão interna revolucionou a indústria, ao permitir o desenvolvimento de uma gama completamente nova de máquinas e veículos. Contudo, estes novos equipamentos
eram muito mais complexos do que as máquinas movidas a vapor, o que trouxe novos desafios.
Os motores a combustão exigiam uma atenção regular e detalhada, com foco em componentes como velas de ignição, carburadores e sistemas de lubrificação. Esta complexidade crescente levou ao surgimento de especializações dentro das equipas.
Evolução da manutenção preventiva
Durante este período, esta tipologia começou a ganhar mais tração. Os industriais começaram a entender que a manutenção regular dos equipamentos podia aumentar significativamente a sua vida útil e reduzir o tempo de inatividade. A substituição de componentes antes que falhassem, como correias e engrenagens, tornou-se uma prática comum, e as fábricas começaram a instituir rotinas de inspeção e atuação baseadas no tempo ou no número de horas de operação.
O período entre as Guerras Mundiais também viu a evolução do conceito de manutenção preventiva, especialmente em setores como a aviação e a indústria automóvel, onde a falha de equipamentos podia ter consequências desastrosas.
Segunda Guerra Mundial e o surgimento da manutenção moderna
Importância da manutenção durante o esforço de guerra
A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) teve um impacto profundo na evolução da manutenção industrial. Com as necessidades crescentes de produção e as enormes quantidades de equipamento militar a serem usadas, esta tornou-se crítica. Manter tanques, aviões, navios e outros equipamentos militares em funcionamento era uma questão de vida ou morte.
Durante a guerra, foram desenvolvidos novos sistemas, que se tornaram as bases da manutenção moderna. O conceito de “manutenção preventiva” foi amplamente adotado nas forças armadas, com inspeções regulares e substituições programadas de componentes críticos. A aviação militar, em particular, foi um campo onde este conceito floresceu, com registos detalhados de horas de voo e manutenção sendo mantidos para cada aeronave, assim como na Marinha, onde foram desenvolvidos programas intensivos.
Pós-Guerra e a revolução da Manutenção Produtiva Total (TPM)
Crescimento industrial pós-guerra e a complexidade dos equipamentos
O período pós-guerra trouxe uma explosão de crescimento industrial e, com ele, o aumento da complexidade das máquinas e equipamentos. As indústrias automobilísticas, siderúrgicas, petroquímicas e de eletrónica floresceram e, com o aumento da automatização, a manutenção tornou-se ainda mais crucial.
Nos anos 50 e 60, com o avanço da eletrónica, os sistemas de controlo e automação começaram a desempenhar papeis fundamentais na produção industrial. A necessidade de uma manutenção eficiente tornou-se ainda mais premente, pois as paragens inesperadas podiam causar perdas significativas.
Introdução do TPM
No final dos anos 1960 e início dos anos 1970, no Japão, surgiu um novo paradigma: a Manutenção Produtiva Total (TPM). Esta abordagem foi desenvolvida pela Nippondenso, uma empresa fornecedora da Toyota, e focava-se na participação total de todos os níveis da organização na manutenção, desde os operadores de máquinas até à gestão.
O TPM defende a ideia de que a manutenção não deve ser uma responsabilidade exclusiva dos técnicos, mas uma parte integrada da operação diária das fábricas. Este conceito promove a “automanutenção“, onde os operadores são treinados para realizar tarefas simples como limpeza, lubrificação e inspeção dos seus próprios equipamentos. Isso não só aumenta a disponibilidade, como também cria um ambiente de maior envolvimento e responsabilidade entre os trabalhadores.
A abordagem TPM também introduziu o conceito de “melhoria contínua” (Kaizen), onde a fiabilidade dos equipamentos é continuamente melhorada através de pequenos ajustes e inovações incrementais.
Manuel Teixeira e Filipe Santos
myev.me
Para ler o artigo completo faça a subscrição da revista e obtenha gratuitamente o link de download da revista “Manutenção” nº168/169. Pode também solicitar apenas este artigo através do email: a.pereira@cie-comunicacao.pt
VOCÊ PODE GOSTAR
-
Migre os seus dados massivos sem complicações
-
CMMS: otimização da manutenção para todas as escalas
-
Como a transformação digital impulsiona a sustentabilidade: uma via rápida para a neutralidade carbónica industrial
-
A nova era na gestão de ativos elétricos
-
Estamos a formar os técnicos que o país precisa?

